A convulsão

A guerra é a continuação da política, disse Clausewitz e segundo a pensadora alemã Hannah Harendt, “poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente”. De forma que, segundo a pensadora, se há violência é porque os mecanismos de Estado estão falhos.
Acima estão dois pontos que pode nos convencer de que no Brasil, a guerra civil está próxima.
Como nossa política está absolutamente falha em todas, eu digo em todas as esferas, os conflitos são iminentes, lembrando que a política é o primeiro ato da relação social entre indivíduos, entre organizações e entre poderes e, no Brasil, todos estes estames sociais e econômicos estão exauridos em sua capacidade de produzir diálogos, ou seja, de se fazer política. Portanto a violência e a falta de Estado são as causas que podem nos levar ao conflito social. Não há poder no Brasil, apenas mando. Aquele que tiver mais violência manda.
O Brasil vive um processo de violência jamais visto em país algum – exceto guerras. Ela se dá em todas as esferas: nas estradas, nas favelas, nos presídios, nas periferias, nos bairros nobres, nas famílias; em todos os lugares a violência está alcançando níveis assustadores. Isso segundo a alemã citada acima, é falta do poder de Estado.
O Estado brasileiro enfraqueceu ao ponto de cambalear entre o amoral e a inconsequência. Nossos políticos e empresários esfaqueiam o país sem remorso e culpa, Marcelo Odebrecht, é a epítome de nossa desgraça, ele realiza sua delação premiada, não por arrependimento, mas por oportunismo. Ele é o símbolo do estado caótico que nos levará ao absinto da insurreição assim como foi o conflito dos jacobinos contra o absolutismo deificado pela nobreza. Aqui na várzea, o absolutismo está representado pelo caldo chamado classe média e média alta, pessoas do calibre de Marcelo Odebrecht.
O discurso acima no remete às motivações da guerra civil francesa travada de 1792. O ambiente brasileiro é uma cópia exemplar das fidalgas condições vigentes daquela época, nos falta um Robespierre.
Porque o Estado brasileiro é fraco?
Primeiro, nosso lastro econômico é fraco, segundo, nossa política é frágil, terceiro, nossa cultura é covarde.
Sobre economia: nosso poder de fogo econômico só subexiste na medida em que o mundo precise de nossas commodities. Somos ainda um país de economia agrícola. Isso nos remete a um padrão de subserviência quanto à tecnologia. Merdas territoriais como Taiwan possuem mais conhecimentos que todos nossos “centros tecnológicos”.
Sobre nossa política: ela é frágil porque o núcleo de decisão está fragmentado no campo opinativo. Ela, nossa política, foi cooptada por seres inefáveis. Para ser um deputado, o cidadão precisa apenas ter dinheiro. A ideologia do discurso sociopolítico, do intelectual, foi pintado de um vermelho comunista só existente nos pinceis dos pensadores de direita.
Sobre nossa cultura, o Brasil é o país do achismo. Nesse sentido enumera-se opinadores de grande repercussão do tipo Delfim Neto e mais recentemente Marco Antonio Villa.
O primeiro, um alquimista econômico que produziu a riqueza das elites e a desgraça social dela advinda, tudo isso na ditadura. Criou-se uma plutocracia contra o povo endividando o país com seu mentiroso “milagre econômico” ao ponto de nunca mais coseguirmos realinhar a distribuição de renda no Brasil. O outro, o Villa, xinga sem parar qualquer coisa que seja vermelha. Parece boi de tourada, não pode ver nada vermelho se mexendo que já investe.
Nossos pensadores são na verdade gatilhos prontos a detonar a bomba social preste a explodir. Mórbido o Estado não mexe, posto que gordo demais para sequer virar-se no leito esplêndido. Somos um gigante, obeso e compulsivo, nosso fim é ser retalhado pelos fatos que se desenrolam sem que nada possa ser feito. Não há poder.

Waldemar Rêgo é jornalista e escritor waldemarregojr@gmail.com